Olá, amigos. Flavio me convidou para escrever sobre F-Truck e, claro, aceitei com enorme prazer. Sou leitor assíduo do Grande Prêmio e do blog dele e gosto dos debates e opiniões sobre automobilismo. Vou tentar escrever algo bacana, contando um pouco sobre os bastidores e o funcionamento de um veículo de corrida tão diferente e apaixonante, mas ainda discriminado por muitos, o caminhão.

Nesse primeiro post vou falar sobre o cara que começou tudo isso, Aurélio Batista Felix, e para ele o título tem que ser esse mesmo: O CARA.



Aurélio era diferente de todos. Ah, se tivéssemos ao menos mais dois organizadores como ele. Frio, calculista, enérgico, ditador, explosivo, audaz, inteligente, amável, duro, coração mole, raivoso, ignorante, amoroso e chorão. Tudo isso eu ouvi, falei e discuti durante 11 anos em que tive o prazer de conviver com ele. Empreendedor, batalhou muito pra fazer da F-Truck o que é hoje. Tem coisas que ninguém sabe, como por que ela não é notada, falada, escrita ou mostrada, mas muita coisa só essa categoria tem no Brasil. Teremos mais oportunidades e vou contando tudo em outros posts.

Quando eu saí da Stock Car, no fim de 1996, de uma hora pra outra fui correr de Truck a convite dos distribuidores Volvo. Ganhava R$ 2,5 mil reais por mês e tinha um espaço publicitário no caminhão que rendia mais alguma coisa. Em pouco tempo me quebrei todo, pois era bem menos do que eu vinha ganhando. Uma noite, estávamos Aurélio e eu voltando de um evento em São Paulo, e eu chorando as pitangas com a minha situação. Ele falou assim: “Cabeção (era assim que ele me chamava, não sei por quê), confie em minha ‘cathiguria’ (era assim que ele falava, rs) que você vai poder viver das corridas e viver bem. Vai chegar uma hora que as ‘muntadoras’ vão ter que estar aqui, porque nosso público é o público das ‘muntadoras’. Se você for profissional tudo vai dar certo”.

Acreditei nele, segui direitinho seu conselho, e hoje vivo do que escolhi pra viver, que é guiar carros de corrida.

Se eu continuar falando desse cara fico aqui dias e dias, mas vou contar uma passagem que para mim e minha família ficará marcada para sempre. Em julho de 2002 perdi meu pai após ele sofrer um infarto fulminante durante uma corrida de kart. Fiquei louco, nunca tinha passado por uma situação assim. Estava com minha família e fomos todos para o hospital, mas Aurélio não me deixou entrar. Uma hora ele me chamou e disse: “Cabeção, já era, o velho foi embora, não tem o que fazer. Leva sua mãe e as crianças para o hotel e me encontra no aeroporto às 6h30 da manhã”. Fui falar algo e ele me disse pra ir embora que tratava de tudo. Fiz isso, chegamos ao aeroporto no horário combinado e tinha dois aviões, um para levar meu pai e outro para nossa família.

Depois do funeral, minha mãe e eu fomos perguntar a ele quanto devíamos, e mais uma vez veio a resposta seca: “Cabeção, isso é um problema meu e do seu pai, quando eu chegar lá em cima acerto com ele”.

Esse era o Aurélio, o cara que nunca viu competição de carros na vida, mas que deixou exemplos a serem seguidos. Fez do esporte a paixão de um povo que ama o caminhão acima de tudo, que lota autódromos por onde passa, tem sete montadoras, cinco delas com equipes oficiais. Deixou uma categoria que reforma autódromos (coisa que as federações e clubes deveriam fazer) e que emprega um mundo de pessoas em diversos seguimentos. Deixou lições de vida, a principal delas que as coisas têm que ser feitas com amor, trabalho, dignidade e crença.

Esse mês faz um ano que ele se foi. Pena que esse acerto de contas lá em cima chegou muito rápido.

Que saudades que dá, mas o "deus Aurélio" vai continuar vivo em nossas mentes para sempre!

Abraços a todos e me desculpem por não falar de corridas.