Temos a tendência natural de esquecer até mesmo quem nos proporcionou momentos de alegria e entretenimento. São assim, digamos, nossos ídolos e heróis “temporários”. Se não formos constantemente lembrados através da mídia, blogs, livros, ou de algum outro guardião da memória esportiva qualquer, em pouco tempo não nos recordaremos nem mesmo dos campeões, quanto mais dos que não chegaram a tanto. Somos imediatistas. Damos valor só para a mais recente vitória e vitorioso. Da mesma forma, só nos importamos com quem chega em primeiro. Consideramos o segundo colocado “o primeiro dos últimos”, e se nosso ídolo não ganha sempre, logo na sua primeira “não vitória” começamos a duvidar seriamente da sua capacidade de vencer novamente! Um repórter brasileiro, entrevistando Emerson Fittipaldi após uma prova na qual ele não havia sido muito feliz, fez a seguinte pergunta ao bicampeão mundial de F-1, duas vezes vice, campeão da Indy e também duas vezes vice, vencedor por duas vezes das 500 milhas de Indianápolis: “Emerson, a que você atribui o seu fracasso?”.

Existem também aqueles que, apesar de terem sido campeões, “não emplacaram” na nossa memória. Certamente um deles foi Damon Hill. Com a saída de Nigel Mansell da F-1, em 1993, para disputar uma temporada da CART americana, Hill, que até então era piloto de testes da Williams, passa a ser o segundo piloto do time inglês, ao lado de Alain Prost. O francês seria campeão naquele ano, à frente de Ayrton Senna, com Hill em terceiro. Nada mau. Com a aposentadoria de Prost ao final da temporada, a Williams contrata Senna para 1994. O brasileiro é, pelo menos, meio segundo por volta mais rápido do que Damon. Com a morte de Ayrton em Ímola, quarta prova do ano, Hill se vê, de repente, alçado a primeiro piloto da poderosa equipe de Frank Wiliams. Se na prova seguinte à tragédia, disputada em Mônaco, abandonou logo no início, a seguinte, na Espanha, venceu. 26 anos antes, seu pai, o grande Graham, havia vencido também na Espanha, em circunstâncias semelhantes, após a morte de Jim Clark.



David Coulthard, piloto de testes da equipe, foi então promovido para correr ao lado do inglês. Mas se Damon Graham Devereux Hill não vencia sempre, o que poderia ser até aceitável, não era o fato de ser um piloto inconstante. Era capaz de dirigir sublimemente numa corrida, como em Suzuka na chuva, levando a melhor, no braço, sobre a Benetton de um tal de Michael Schumacher. Já em outra, rodava infantilmente, saía da pista, ou batia. Pior do que isso, não conseguia dissimular suas inseguranças.

Quando se achava pouco confórtável num treino, ou às vésperas de uma corrida, era incapaz de fingir uma confiança que não sentia. Tímido, introspectivo, era um piloto totalmente honesto e transparente. Na F-1 infelizmente isso não funciona. Por ocasião do GP da França, a Williams traz de volta o veterano Nigel Mansell a peso de ouro. Para se ter uma ideia da desconfiança do time no taco de seu piloto número 1, Nigel embolsou 900 mil dólares por cada uma das quatro corridas restantes, enquanto Hill recebeu 300 mil por toda a temporada como primeiro piloto! Imaginem o que isso deve ter feito para a auto-estima do rapaz. Ainda assim, Hill e Schumacher chegaram na última prova do ano, em Adelaide, brigando pelo título. Michael tiraria Hill da prova, num choque que eliminou a ambos, mas ainda assim, dando o campeonato para o alemão. O ano de 1995, apesar do favoritismo, foi péssimo para a Williams. Até a terceira prova do ano não foi tão mal assim, mas com a vitória de Schumacher, com a Benetton, em sete das doze provas restantes, a coisa ficou feia para o time inglês. Por isso, mas principalmente por ser a pessoa que era, mesmo tendo se sagrado campeão mundial de F-1 no ano seguinte, Hill – caso inédito – foi demitido ao final da temporada de 1996. Desde meados do ano anterior, Frank Williams e Patrick Head, na surdina, haviam firmado um contrato com Frentzen...